Polônia - Boletim ASA nº 101, jul-ago/2006


Há Sessenta Anos, em Kielce...

Renato Mayer / Especial para ASA

 

Repatriados da então União Soviética, saídos dos campos de concentração ou libertados nos territórios poloneses a oeste do  Rio Vístula, houve um momento, em julho de 1946,   em que os judeus  na Polônia do pós-guerra chegaram a 200 mil pessoas.  Enganavam-se, porém, aqueles que, há justos 60 anos, julgavam poder, enfim, encontrar a paz em sua pátria reconstruída.  Diversos sinais já haviam sido emitidos de que algo dramático estava para ocorrer.

A Polônia vivia então um clima de violenta disputa pelo poder, com feições de uma guerra civil.  O movimento armado de oposição aos comunistas era forte e se constituía  basicamente de grupos com uma visão nacionalista etnocentrista, como as NSZ (Forças Armadas Nacionais), na qual não cabiam nem aqueles  – então ligados à União Soviética  –, nem  os alemães e, muito menos, os judeus.  Bandos freqüentemente uniformizados foram responsáveis por pogroms localizados  − como em Parczew, Wierzbnik, Rzeszow  e Przedborz −, roubos, agressões, intimidações, atentados a bomba e granada – em Cracóvia e Lezajsk −, usando como pano de fundo desde os velhos libelos anti-semitas (como os de conspiração pelo controle da vida política e  crime ritual), a forte presença de judeus no novo governo comunista, a represália a tentativas de recuperação de imóveis ou o banditismo pura e simples.  O clima era de hostilidade absoluta aos judeus e a violência poderia se dar sob quaisquer condições.

Estimam-se entre 350 e mil os judeus mortos em sucessivos ataques  entre setembro de 1944 e setembro de 1946.  O ápice de brutalidade, porém,  ocorreu em Kielce, em 4 de julho de 1946.  A cidade esteve vazia de judeus durante a guerra, mas, ao seu final, gradualmente cerca de duas centenas de antigos moradores retornaram dos campos da morte ou de esconderijos e viviam, em sua maioria, em um único prédio, aguardando a emigração para a Palestina.

Na véspera de 4 de julho, um menino de nove anos que desaparecera de casa por três dias resolve voltar.  Temendo provavelmente um castigo e induzido pelas pessoas que o interrogavam, apontou o prédio onde se abrigavam os judeus como o local onde teria ficado aprisionado.  No dia seguinte, a polícia é acionada, comparece com um grande contingente para uma revista na casa, espalham-se os boatos de que os judeus estavam seqüestrando crianças polonesas e de que havia armas na casa,  uma enorme multidão se junta em frente à edificação.  Os policiais, a essa altura auxiliados por soldados, invadem a casa com violência atirando, saqueando e  expulsando e batendo nos moradores.  Às 11 horas da manhã, Seweryn Kahane, presidente do Comitê Judaico em Kielce,  é morto a tiros pelos soldados.  Morto enquanto apela por socorro.  O pogrom já está em pleno curso e outras vítimas se sucedem, à medida que vão saindo para a rua ou tentando fugir. Em outras partes da cidade, judeus são também atacados e por civis.

Segundo a historiadora Bozena Szaynok, que pesquisou a fundo a história do pogrom de Kielce, o exército recebeu instruções para controlar a multidão na praça em frente ao prédio dos judeus, o que ocorreu até pouco depois do meio-dia, quando a calma temporária foi interrompida pela chegada dos operários da usina siderúrgica de Ludwikow.  Este acontecimento marcou o início da fase seguinte do pogrom, durante a qual duas dezenas de judeus perderam a vida.

“De acordo com testemunhas oculares, quando chegaram os trabalhadores, nada mais pôde ser feito pelos judeus dentro do prédio ou na praça.  Nem os comandantes militares ou da polícia secreta, nem os líderes políticos locais do Partido dos Trabalhadores Poloneses tomaram qualquer atitude para impedir que os operários atacassem os judeus.  O pogrom durou até as duas ou três da tarde.  Finalmente, a ordem foi restaurada por novas unidades de soldados vindas de Varsóvia e de uma escola militar próxima, dirigida pelo Ministério do Interior” (Bozena Szaynok, “The Jewish Pogrom in Kielce”, Intermarium, julho de 1946). Havia a ameaça destas recorrerem às armas, mas todos sabiam que o exército polonês não atiraria nos que se consideravam os verdadeiros cidadãos poloneses. 

No caminho do hospital, muitos dos feridos eram agredidos e roubados.  Uma mulher judia foi retirada de uma outra casa e morta com o seu bebê.  Até trens que passaram por Kielce naquele dia foram atacados.  No total, o pogrom  resultou em mais de 40 mortos judeus, além de dois poloneses cristãos que os tentaram ajudar.

Vários processos judiciais foram abertos por conta do pogrom.  Alguns civis receberam penas muito severas, mas, no geral, a atribuição de punições parece ter sido algo aleatória.  Policiais e militares, julgados em separado por terem se omitido no impedimento de crimes pela multidão, foram todos absolvidos.  Na oficialidade, houve apenas uma única condenação leve.

Isso e mais uma série de fatores ligados ao episódio favoreceram a tese de que havia um interesse superior em criar as condições para deixar acontecer e escalar o pogrom.  A violência da luta política na Polônia era muito maior do que em qualquer outro país da Europa Central à época e um tamanho ato de brutalidade servia  para desmoralizar a sociedade polonesa, seus elementos mais conservadores e nacionalistas, os anti-comunistas entrincheirados no Partido dos Camponeses Poloneses e no movimento armado de resistência.  Um primeiro referendo nacional, preparatório das eleições parlamentares, tinha sido realizado um mês antes e prevalecia o sentimento generalizado de que os fiéis aliados da União Soviética haviam manipulado o resultado a seu favor.  Para estes, era importante desviar o curso das suspeitas, tanto em seu país como no Ocidente.  O pogrom de Kielce coincidiu com a divulgação dos resultados do referendo.

Seja como for, este foi um ponto de inflexão na situação dos judeus na Polônia do pós-guerra.  A partir daí, houve uma queda sensível na violência anti-semita, derivada de uma maior ação governamental para coibi-la, da adoção de medidas de prevenção pelas próprias comunidades judaicas e da redução do poder e influência dos grupos armados anticomunistas.  O impacto maior, no entanto, foi na escalada da emigração.  Os judeus não se sentiam mais seguros na Polônia.  Nos três meses que se seguiram ao pogrom, cerca de 62 mil deixaram o país.  Novas levas se sucederam, muitas com destino à Palestina e Israel.  A Polônia foi-se esvaziando de judeus.

Após a Guerra dos Seis Dias, uma nova onda anti-semita atravessou o país e resultou em uma última emigração de 13 mil judeus, grande parte deles bem integrados no trabalho de construção do socialismo.  Definhou definitivamente o judaísmo na Polônia.  Nos anos 1980, restavam apenas pouco mais de 5 mil judeus, em sua maioria  velhos, debilitados e depauperados demais para qualquer tipo de mobilização pessoal ou coletiva.  Passaram-se anos e mais anos sem a realização sequer de um Bar Mitsvá.

E, no entanto, com a mudança recente de regime, o judaísmo reergueu-se.  Redescobrindo suas raízes, muitos jovens se converteram à religião dos seus ancestrais.  A União Polonesa de Estudantes Judeus conta já com 400 membros.  No último mês de outubro, foi noticiada a contratação, na cidade de Cracóvia, de um rabino em tempo integral, pela primeira vez desde a Segunda Guerra.

A mudança proporcionou também o levantamento de um tema delicado: o da restituição da propriedade judia na Polônia.

Um estudo recente, patrocinado pelo governo de Israel, estima o valor total atualizado dos imóveis anteriormente pertencentes a judeus em  30 bilhões de dólares. Diz-se anteriormente porque o governo comunista se considerou, ainda nos anos 1940,  o herdeiro legal das propriedades que haviam pertencido aos judeus, a despeito de um verniz legal de compensações que nunca foram pagas.

A Igreja Católica Romana foi a primeira instituição a se beneficiar da nova legislação de restituições.  Em 1997, as pequenas comunidades judaicas existentes foram reconhecidas como herdeiras legais das propriedades pertencentes às 1.500 comunidades judaicas ativas antes da guerra.  Trata-se de propriedades comunitárias: ainda assim, o ritmo de devolução é tão lento que, até julho de 2005, apenas 3% das 5.544 solicitações de restituição haviam sido resolvidas positivamente.

Quanto à restituição das propriedades privadas, que é o que realmente conta, a legislação, mesmo recente, não está ainda consolidada.  Por conseguinte, há caminhos e processos, mas se detêm em um cipoal  de restrições quanto à documentação, prazos, possíveis beneficiários, valor dos bens, instâncias de julgamento.  As associações de sobreviventes e as de judeus de origem polonesa têm-se mostrado vigilantes e pressionam por uma legislação mais clara e definitiva, mas em uma Polônia cheia de novas obrigações por sua condição recém-adquirida de membro da União Européia, pode-se perguntar por quanto tempo ainda pairarão, em desassossego, os fantasmas de Kielce e os demais.

 

Renato Mayer é economista e colaborador do Boletim ASA.

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