| Especial - Boletim ASA nº 101, jul-ago/2006 |
Edgard Leite Castro / Especial para ASA Em
1967, o filósofo marxista Herbert Marcuse proferiu uma série de
conferências na Universidade Livre de Berlim, reunidas em O fim da
utopia (Siglo XXI, 1968). No decorrer dos debates defendeu de forma
incisiva a causa de Israel.
“Não posso esquecer”, afirmou, que os judeus “por séculos foram perseguidos e oprimidos e que seis milhões deles foram aniquilados não faz muito tempo. E quando se cria para esses seres humanos um espaço no qual não precisam mais temer a perseguição e a opressão, tal coisa constitui um objetivo com o qual me declaro identificado... celebro coincidir nisto com Jean-Paul Sartre, que disse: ‘o único que deve ser evitado, a qualquer preço, é uma nova guerra de extermínio contra Israel’.”
Para os que viveram o final da guerra havia clareza de que a partilha da Palestina fora uma grande vitória da justiça e uma ação libertadora. A decisão das Nações Unidas reconheceu direitos, tanto dos judeus que ali viviam quanto dos árabes. Convidou-os à coexistência e entendimento. Israel representou não apenas a realização de uma esperança milenar e o reconhecimento universal da dolorosa trajetória de um povo, mas o triunfo humanista da tolerância. “Existe na esquerda”, portanto, continuou, “uma identificação muito forte e muito compreensível com Israel.”
Mas Marcuse lembrou que desde o início “os representantes árabes − e não quaisquer representantes − declararam firmemente, e em voz alta, que se deve fazer contra Israel uma guerra de extermínio...”. Tal atitude se identificava com as forças que tinham sido derrotadas em 1945.
Fácil, mas não verdadeiro. No que diz respeito a Israel, segundo Marcuse, “propostas de entendimento foram formuladas por Israel reiteradamente e essas propostas sempre têm sido rechaçadas pelos representantes árabes”. Isto é, não foi Israel o primeiro responsável pelo confronto. Sempre buscou a conciliação e apenas se defendeu, mesmo, segundo ele, em 1967. Além do mais, Israel se constituiu como sociedade democrática, fortemente influenciada pelos ideais socialistas. Não fazia muito (1950) que Martin Buber afirmara a existência de dois núcleos socialistas no mundo: Moscou e Jerusalém (Caminhos de utopia, FCE, 1955). E não o fez de forma retórica: o papel da economia socializada era grande, e ainda é significativo, em Israel.
O anti-americanismo não se constitui, por si só, prova de política progressista, assegurou, sensatamente, Marcuse. Os EUA são atacados pela esquerda, mas também pela direita, e por diferentes razões. Lembremo-nos do similar erro de Gandhi, no limiar da Segunda Guerra Mundial. O Mahatma buscou o apoio de Mussolini, pela única razão de ambos serem hostis aos ingleses. Nada mais equivocado. Por essas razões, Marcuse defendeu, em Berlim, no distante 1967, não apenas os vietcongs, mas também a causa de Israel. Sem dúvida, os árabes, os iranianos ou os curdos – e todas as nações e pessoas − têm direitos à autodeterminação, a um lugar no mundo. Mas não a partir do extermínio de outros povos e seres humanos. Quando Sartre sustentou que “o único que deve ser evitado, a qualquer preço, é uma nova guerra de extermínio contra Israel”, pensava certamente que a causa de Israel não pertence apenas aos israelenses ou aos judeus. É uma causa da Humanidade. Símbolo da vitória contra o poder aniquilador da ignorância. Verdadeira e virtuosa.
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