Especial - Boletim ASA nº 100, mai-jun/2006


SP - Judeus Progressistas: Isolamento Político?

Alberto Kleinas / Especial para ASA

          É comum escutarmos termos pejorativos referentes aos roite idn. Até um passado recente, os ativistas da Casa do Povo eram acusados de serem anti-sionistas, contrários ao Estado de Israel.
          

          Esta imagem levou ao isolamento dos chamados setores progressistas. O dito aburguesamento da coletividade judaica paulistana e sua migração geográfica pela cidade de São Paulo – saindo do Bom Retiro e indo para os Jardins e Higienópolis – contribuíram para este isolamento, mas não creio que tenham tido influência fundamental. Muito mais importante para o isolamento dos progressistas judeus foi, por exemplo, o cenário internacional, do qual analisaremos especialmente alguns episódios: a Guerra Fria, a criação do Estado de Israel e o 20˚ Congresso do Partido Comunista da União Soviética – com o relatório Kruschev e a denúncia dos crimes de Stalin. Também as posições políticas defendidas na revista O Reflexo [publicação da Casa do Povo] devem ser levadas em conta.
          

           Com o final da Segunda Guerra Mundial, a comoção geral por conta do Holocausto motivou várias ações comunitárias, entre as quais a fundação da Casa do Povo, com a ajuda de toda a coletividade paulistana. No pós-guerra, a URSS era vista como vitoriosa, pois havia tomado Berlim, e o noticiário comunitário progressista divulgava a luta contra o anti-semitismo no bloco socialista, além da construção do Birobidjan, a pátria socialista judaica dentro da pátria socialista soviética. Divulgava assim o respeito à cultura e aos anseios judeus na URSS.

             Nos idos de 1946, no prelúdio das campanhas em prol da partilha da Palestina e mesmo de arrecadação financeira em prol do nascente Estado de Israel, os progressistas trabalharam juntamente com os sionistas. Como prova, temos vários eventos e atos públicos feitos em parceria e − por que não dizer − a própria fundação da Federação Israelita do Estado de São Paulo (FISESP) contou com um grande apoio dos ativistas progressistas. Assim, mesmo no período de publicação da revista, vários foram os artigos que demonstravam uma especial convergência de interesses com os setores sionistas socialistas, ou melhor dizendo, com o Hashomer Hatzair. Entre eles, um defende assim o caráter do novo Estado: “(...) Estado judeu progressista e democrático em Israel. Deve cooperar na luta do novo Estado judeu contra os imperialistas ianques, ingleses e árabes”. (I. Rose, “Dualismo da juventude”, em O Reflexo, março de 1949, no. 3).

               A Europa e os Estados Unidos eram apresentados como palcos de um renascimento do anti-semitismo e a URSS era retratada como implacável contra este crime e promotora do renascimento da cultura judaica nos países do bloco socialista.

               O Estado de Israel oscilou entre o bloco soviético e os EUA durante os seus primeiros anos até a opção decisiva de Ben Gurion pelo bloco americano (também denominado capitalista, ou democrático).
Em conseqüência desta opção israelense pelo bloco anglo-americano, e seguindo a lógica da real politik da Guerra Fria, a URSS buscou outros aliados na região, extremamente importante em termos geoestratégicos. Os árabes, sedentos do apoio militar soviético, foram a opção do bloco socialista.
O pragmatismo das relações exteriores soviéticas era justificado pela defesa da independência nacional das antigas colônias européias. Avançava sua esfera de influência para além dos muros da Europa Oriental, alcançando China, Coréia do Norte, Vietnam, Camboja etc. e, no que nos interessa, Egito, Síria, Líbia etc., ou seja, os principais inimigos do recém-criado Estado de Israel.

                 Os judeus progressistas foram colocados num paradoxo entre o socialismo soviético e o nacionalismo judaico. A dicotomia da 3ª Internacional (internacionalismo proletário X independência nacional e luta anticolonial) repetia-se como um pesadelo na cabeça dos judeus progressistas. Assim, a direção da revista vai progressivamente aumentando a crítica ao governo israelense, passando a se confundir com uma crítica ácida à própria existência do Estado de Israel. A confusão entre governo e Estado é aproveitada pelos setores sionistas que passam a isolar politicamente os progressistas. 
Nas páginas de O Reflexo nos idos de 1949, constatamos a defesa da proposta de um Estado Judeu progressista, democrático e laico. Tal proposta aproximava os progressistas da Casa do Povo e o Hashomer Hatzair – movimento vinculado ao partido Mapam, mas esta proposta já estava superada pela própria realidade da Guerra Fria, quando o governo israelense se alinhou aos Estados Unidos e ao Reino Unido. Incansavelmente, O Reflexo continuou em sua “luta contra o imperialismo”, buscando demonstrar a “traição” de Ben Gurion e atiçando seu divórcio da coletividade judaica brasileira, que seria ainda mais esgarçada pelas revelações dos crimes de Stalin por Kruschev, sem falar no caso Slansky. De arautos da liberdade e do renascimento da cultura ídish, os progressistas viram-se como aliados dos anti-semitas soviéticos.

                 No mesmo período em que ocorre este isolamento, o Brasil começa a viver um processo de crescimento econômico, que possibilita uma ascensão social jamais vivida pela coletividade judaica brasileira, com as conseqüentes migrações para bairros mais ricos. Podemos inferir uma mudança de comportamento político nesta fase, como retrata Roberto Grün, mas, mesmo nas hostes do Partido Comunista Brasileiro, que vivia um período de relativa legalidade, estas revelações causaram estragos que provocaram o surgimento de uma dissidência. Capitaneada por João Amazonas, Diógenes Arruda Câmara e Maurício Grabois em 1962, tal dissidência deu origem ao Partido Comunista do Brasil, que se aproximou do campo político do Partido Comunista Chinês e, depois, da Albânia. Mas a confusão e a busca imediata de novos horizontes que trouxessem de volta a mítica comunista impediram um aprofundamento do debate e tiveram como conseqüência o esvaziamento destes partidos aqui no Brasil.
Não ocorreu de forma diferente no front judaico. A realidade israelense era uma mítica muito superior à mítica de Birobidjan. E esta também se esvaziou. O que restara à Casa do Povo?
Em 1958, pela primeira vez, duas chapas concorreram à direção da Casa do Povo. A chapa vencedora foi a de oposição, que criticava a revisão de rumos e propunha a manutenção dos valores socialistas. Houve uma proposta de diretoria proporcional, na tentativa de conciliar os dois lados, mas esta fracassou e os jovens, aliados a alguns velhos ativistas da Casa do Povo, passaram a dirigir os rumos da instituição. É significativo que os velhos ativistas que saíram da Casa do Povo acabaram por fundar um novo clube, de existência efêmera, chamado Golda Meir. 

                 O golpe militar de 1964 no Brasil transformou a Casa do Povo em alvo potencial da repressão militar. Foram detidos para averiguações diversos dirigentes, professores, membros da diretoria do ICIB, sem a mínima intervenção da FISESP, que se dissociou publicamente do ICIB e do Colégio Sholem.
Assim, a decadência dos progressistas começou no apoio cego ao modelo soviético e culminou com o estabelecimento do Estado de Israel e o aprofundamento da Guerra Fria em nível internacional e do movimento sionista em particular. No Brasil, concorreram para esta decadência a propaganda anti-soviética do regime militar e a repressão política da ditadura, além do anticomunismo militante de parcela significativa do movimento sionista no Brasil e das lideranças comunitárias.
um professor me ensinou que o nome Ahasverus, do imperador da história de Purim, poderia ser lido como Ahas Va Rosh, ou seja, aquele que sente na cabeça, o que é uma maneira cifrada de dizer que o sujeito era louco. Nunca mais esqueci a explicação que atribuía à doideira do imperador a sua inclinação às idéias genocidas de seu ministro, Haman. Pensar que coisas como exterminar os judeus só passavam pela cabeça de governantes tresloucados dava uma certa tranqüilidade ao menino recém-chegado a Ashquelon, na beira do deserto do Neguev, a dez quilômetros da Faixa de Gaza.

Alberto Kleinas, é professor de Sociologia e Metodologia da Universidade Anhembi-Morumbi de São Paulo.

 

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