EDITORIAL - Boletim ASA nº 100, mai-jun/2006


Lá e Cá

            Em Israel, a questão da segurança sempre teve enorme peso eleitoral. Houve momentos em que ela monopolizou a disputa, que se resumia à busca de quem teria mais credibilidade para lidar com o conflito com os países árabes e os palestinos. As recentes eleições, entretanto, marcaram uma inflexão. O monopólio foi desafiado, mesmo que pelo menor quorum da história do Estado (quase 40% dos israelenses se abstiveram de votar).

            O crescimento do Partido Trabalhista, cuja campanha privilegiou questões domésticas, e o surpreendente desempenho do recém-criado Partido dos Aposentados (mesmo se admitindo que venha a ter vida efêmera), indicam um desejo de respostas urgentes para os problemas internos do país. Na mesma linha pode-se interpretar o sucesso do partido religioso Shas, que agora tem a terceira maior bancada da Knesset. Usou na campanha um discurso assistencialista, de socorro às camadas pobres dos judeus sefaradim e orientais.

            A tensão com os árabes e palestinos, é claro, não desapareceu. Mais do que isso. Alimentou tendências radicais segregacionistas, do que é prova o expressivo aumento da bancada de extrema-direita (Israel Beitenu), que prega abertamente a “remoção” dos árabes-israelenses (expulsão para fora das fronteiras do Estado). Há, porém, um agravamento de problemas sociais e econômicos, que romperam o bloqueio monopolista da segurança na ordem de prioridades. Que problemas são esses ?

            A pobreza vem aumentando consistentemente em Israel. Mais de 400 mil famílias sofrem de “insegurança nutricional”, um eufemismo para fome. Quase 30% dos cidadãos israelenses, ou seja, 1 milhão e 600 mil pessoas vivem em estado de pobreza. Entre elas, estão mais de 600 mil crianças que passam fome. Os níveis de desemprego variam de 10 a 20%, dependendo dos critérios utilizados para medição. Um quarto dos aposentados vivem abaixo da linha da pobreza. As políticas do Likud  − redução do seguro-desemprego, corte nos orçamentos para educação e saúde públicas, demissões no funcionalismo público, congelamento do salário-mínimo e cortes no orçamento de benefícios sociais, entre outras –  tiveram grande impacto negativo na classe média e nos extratos mais pobres.

            No Brasil, há eleições à vista. A temporada de denúncias de corrupção aberta em 2005, e que está longe de acabar, pode soterrar o debate sobre as grandes questões nacionais. Se a isso se somar a decepção do eleitorado com o comportamento criminoso de muitos políticos e a impunidade dos corruptos, o país poderá testemunhar uma das campanhas eleitorais mais medíocres e vazias de sua história.

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            Pois é, chegamos à edição 100. Uma jornada de busca constante por diálogo e informação. Desde o início, as diretorias da ASA compreenderam a importância de uma publicação aberta às várias formas de identidade judaica e à reflexão sobre os grandes temas que inquietam a sociedade contemporânea. Nestes mais de dezesseis anos, os colaboradores trabalharam em sintonia com a entidade e tiveram total liberdade para convidar articulistas. Respeitada a limitação de espaço, todos os convidados tiveram seus textos publicados.

             Sem qualquer patrocínio, conseguimos manter sem interrupção a regularidade bimestral, aliando o trabalho voluntário das equipes de colaboradores à competência profissional das áreas editorial, gráfica e de arte final. O envolvimento destas com a produção do Boletim ultrapassou, com freqüência, a relação puramente mercantil, revelado na contínua e apaixonada busca pela melhoria da qualidade da nossa publicação.

            Hoje, chegamos a mais de 2 mil endereços e os leitores têm se manifestado por cartas e contatos verbais. Nem tudo são rosas. Fomos criticados várias vezes, quase sempre em tom respeitoso. É importante registrar que, dentro das regras para a publicação de cartas, jamais censuramos qualquer mensagem.

            Por  coincidência, chegamos à edição centenária quando se lembra o nosso patrono, Scholem Aleichem, no 90º aniversário da sua morte. Humanista, observador inteligente de um momento grávido de transformações sociais e políticas, apaixonado cultor da língua ídish, ele é permanente fonte de inspiração. Deixou em testamento o desejo de ser lembrado com humor, traço constante de seus escritos e que vocês poderão constatar no conto que publicamos nas páginas 9 a 11, traduzido por Carlinhos Acselrad. Um presente que vem diretamente de Kasrílevke.

            Alguém já disse que o Diabo veste paletó e gravata. Metáfora para o excesso de sisudez. Grandes atrocidades “foram cometidas com espírito grave, senso de missão, de salvação do mundo”, como bem lembrou o teólogo e psicanalista Rubem Alves. Preferimos manter o espírito saudavelmente moleque de Scholem Aleichem, que é denso e leve ao mesmo tempo. Com ele, queremos ir muito além do 120.

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